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Entrevista a Francisco Luis Vieira - Ensemble Palhetas Duplas
09-Mar-2010
Image Se existe ensembles de metais, clarinetes, saxofones.. porque não de oboés e fagotes? Ensemble Palhetas Duplas, um dos primeiros grupos de instrumentos de palhetas duplas a reunir-se. É composto por jovens músicos de reconhecido valor na comunidade de oboístas e fagotistas de várias escolas. A sua primeira apresentação pública na Cardoso & Conceição, em 2005, revelou uma parte das suas grandes potencialidades como músicos e como ensemble e acima de tudo, demonstrou as suas capacidades de influenciar e modificar positivamente a imagem dos instrumentos de palhetas duplas junto das orquestras e bandas. Em Março de 2010, completam 5 anos de actividade ininterruptos e são considerados como um exemplo de ensemble a seguir no universo da música.
 
 
 
1. Professor, obrigado por ter aceite o nosso convite em realizar uma entrevista cujo tema principal é o ENSEMBLE PALHETAS DUPLAS. Como director artístico e fundamentalmente como fundador deste ensemble, consideramos ser a pessoa mais indicada para falar acerca deste assunto e terá pela certa muito a referir sobre os 5 anos de vida de um grupo tão particular como é o EPD.

Como surgiu a ideia de criar um grupo constituído exclusivamente por instrumentos de palheta dupla?


Começo por agradecer em meu nome e em nome do Ensemble Palhetas Duplas, o convite que me foi dirigido, dando relevo a estes dois concertos comemorativos.
Respondendo à vossa primeira pergunta, assumo de facto, que foi minha a iniciativa de criar esta formação original em Portugal. A ideia surgiu pelo facto de um meu conhecido oboísta francês me ter enviado um CD gravado em concerto ao vivo, por um grupo grande de oboístas e fagotistas. Este CD teve grande sucesso em termos didácticos pelas várias escolas de França. Pesquisei sobre este tipo de formações pelos vários países e verifiquei que grupos de palhetas duplas em quarteto existiam alguns, mas com uma formação tão numerosa, muito pouco existia. Depois, também através de um amigo oboísta de Buenos Aires (Cristian Cocchiararo), deu-me a conhecer outro CD da Escuela Argentina de Oboé, patrocinado pela Lorée. Assim, lembrei-me: se em Portugal a quantidade e qualidade dos oboístas e fagotistas subiu tanto, porque não juntar alunos de nível superior oriundos das várias escolas do nosso país?! Neste contexto, comecei por convidar ex-alunos meus de oboé, vindos na maior parte da Escola Profissional de Artes da Covilhã e fagotistas da mesma escola. Expus também a mesma ideia a outros jovens instrumentistas de reconhecido valor na comunidade de oboístas e fagotistas das várias escolas. A minha intenção era essencialmente didáctica, mas com a ajuda de todos fomos traçando outros objectivos. Pois se há tanto tempo existem tantos grupos de metais, de saxofones, de clarinetes, de cordas… porque não de oboés e fagotes?!


2. Que mais valia veio o ensemble acrescentar ao meio musical, nomeadamente aos oboístas e fagotistas?


Bem, penso que veio essencialmente juntar e unir mais as classes das várias escolas. Acho que foi muito positivo o facto de eles se sentirem mais próximos, ultrapassando-se assim alguma competição ou rivalidade menos saudáveis e negativas. Nos tempos que correm só faz sentido a competição saudável, alterando velhos conceitos e atitudes conservadoras.


3. Quando e onde foi a primeira apresentação pública do ensemble?

Este ensemble reuniu-se pela primeira vez nos finais de 2004, mas depois de dar a conhecer esta iniciativa ao Sr. Mário Cardoso, a sua empresa Cardoso & Conceição, juntamente com a Yamaha, em Março de 2005 promoveram um Encontro de Oboés e Fagotes em Sta. Maria da Feira. Foi convidado o oboísta Yamaha, Ramón Puchades, de Madrid, para realizar masterclass, encerrando o evento com a primeira apresentação pública do Ensemble Palhetas Duplas. A partir daí, tanto a empresa Cardoso & Conceição como a Yamaha, continuaram a apoiar-nos.


4. Relativamente ao percurso do ensemble, e pelo que sabemos, têm realizado concertos de alto nível e com figuras de destaque como convidados. É portanto sinónimo de reconhecimento e importância do mesmo. Como é estruturada e por quem, a planificação de actividades do ensemble?

Nas nossas primeiras apresentações, o repertório era simples e de carácter essencialmente didáctico, com obras que pesquisei e adquiri. Mas depois os vários elementos do ensemble começaram a manifestar a vontade de ousar bem mais em termos do grau de dificuldade das peças. Depois surgiu a ideia de uma inegável e maior originalidade: o ensemble a acompanhar solistas de outros instrumentos que não de palheta dupla. Assim aconteceu de termos o prazer de acompanhar o solista em trompete Jorge Almeida, o solista em tuba Daniel Marques, entre outros. Claro que todos estes solistas vieram contribuir em muito para o reconhecimento da importância do ensemble no meio musical. A planificação das actividades é estruturada por mim, sempre em consonância com as várias opiniões e sensibilidades no seio do grupo.


5. Que tipo de repertório têm feito? Há alguma linha condutora pré-definida?

Quanto ao repertório, as ideias foram surgindo. A partir de uma determinada altura, o João Pereira, oboísta da Banda da Armada, e que tinha sido meu colega na Orquestra Sinfónica Juvenil, manifestou-me a vontade de ingressar no grupo e de dar o seu contributo para enriquecer o repertório para o mesmo. Assim aconteceu, de facto em pouco tempo, apresentou uma quantidade enorme de obras com transcrições e arranjos feitos por ele. Lá fomos introduzindo aos poucos as suas obras e fomos tendo sempre a possibilidade de ir mudando e tocando peças novas e diferentes de concerto para concerto.


6. Qual a média de idades e de formação académica do grupo?

No início, a média de idades andaria por volta dos 22 / 23 anos, mas depois foram ingressando uns elementos mais “velhinhos”, e como os membros da fundação já estão “menos jovens”, neste momento a média rondará os 28 / 29 anos (contando comigo, o “mais velhinho”). Quanto à formação académica dos elementos, se no início eram todos alunos do ensino superior, hoje são mesmo quase todos licenciados e professores em várias escolas.


7. Dentro do historial do grupo, recorda-se quais foram os momentos mais marcantes e porquê?

No que diz respeito a momentos marcantes há vários: termos tido solistas de grande nível; também ficou na nossa memória um momento alto, que foi o concerto realizado na Sala dos Espelhos do Palácio Foz, em colaboração com a Juventude Musical Portuguesa, onde interpretámos uma grande obra e de grau de dificuldade elevadíssimo: As Estações Portenhas de Piazzolla. Esta obra, grande, complexa e de um efeito extraordinário, foi mais um trabalho notável do nosso arranjador e membro do ensemble João Pereira. Este programa foi preparado / ensaiado pelo prestigiado músico argentino Alejandro Erlich-Oliva. Nesta obra, com variadíssimas e fantásticas intervenções solísticas de quase todos os elementos, não posso deixar de destacar, como todos reconheceram, o brilhantismo do 1º oboé Joel Vaz e do 1º fagote Ricardo Santos. Outro momento marcante foi a nossa exibição no Festival de Música em Zamora, Espanha, que entusiasmou o repleto auditório.


8. Como tem sido a receptividade do público ao longo destes anos, uma vez que são um grupo com um timbre diferente?

Confesso que talvez tenha sentido alguma desconfiança por parte de alguns que sabiam da existência do ensemble, mas que nunca o tinham ouvido, porém não deixamos de sentir também que foram mudando de opinião à medida que o vão ouvindo. Sem falsa modéstia, penso que a receptividade e a apreciação têm sido positivas, se bem que o nível foi subindo ao longo do tempo. Sabemos que é uma formação tímbrica mais difícil de tirar partido e de obter bom efeito, comparativamente com outros grupos de música de câmara mais convencionais.


9. Todos temos a noção de que no universo da música é algo complexo manter um grupo a funcionar tanto tempo. Qual o segredo desta existência contínua?

Não sei se há segredo… não há segredo… basta sermos persistentes, usando a maleabilidade e flexibilidade suficientes para gerir as diferentes sensibilidades.


10. Tem havido rotatividade no quadro de elementos? Como se processa?

Sim, há alguns elementos do início, que por várias razoes, tiveram que deixar de pertencer ao grupo. Ingressaram outros que vieram enriquecer o conjunto, mas a maior parte ainda é do núcleo dos fundadores. Temos por exemplo os oboístas Samuel Bastos e João Barroso e a fagotista Susana Janeiro, mas que estão a estudar na Suíça e só pontualmente é que podem colaborar no ensemble. Se me pergunta se há rotatividade em termos de funções a desempenhar, digo-lhe que todos vão rodando ou alternando: umas vezes estão uns em destaque, outras vezes estão outros. As competências estão distribuídas por todos e o empenho é de todos, pois o nível é muito homogéneo.


11. Sabemos que vão comemorar o aniversário do ensemble com dois concertos: um no sul e outro no norte. Fale-nos sobre estes concertos.

Nestes dois concertos, temos a particularidade de exibir exclusivamente obras com arranjos do João Pereira.
A primeira parte é só música barroca e contamos com a especial colaboração do cravista João Paulo Janeiro, abrindo o programa com uma obra de Händel, onde os solistas são dois oboístas do ensemble, o António Campos e o David Costa. Para encerrar a primeira parte, temos a honra de ter como solistas convidados o oboísta Andrew Swinnerton e o fagotista Hugues Kesteman, dois distintos professores e figuras incontornáveis do ensino do oboé e do fagote em Portugal e que merecem a nossa homenagem.
A segunda parte é constituída completamente por música de Piazzolla, com a particularidade e originalidade de termos cinco excelentes solistas convidados: flauta João Pereira Coutinho; violoncelo Nelson Ferreira; trompa António Augusto; clarinete António Menino e saxofone João Pedro Silva, contando também com a especial colaboração do percussionista João Duarte.
Por fim, resta-me salientar a preciosíssima direcção musical pelo distinto Maestro Jean-Sébastien Béreau.


12. Mas professor, porque não realizar apenas um grande concerto, em vez de dois?

É importante fazermos estes dois concertos. Em Lisboa, no Palácio Nacional de Queluz, sendo que o Ensemble Palhetas Duplas está sediado em Lisboa, e pelo facto de a maior parte das nossas actuações ter sido em Lisboa. Mas todo o sentido faz comemorarmos o nosso 5º aniversário no auditório da empresa Cardoso & Conceição, onde tudo começou.

Resta-me, em nome do Ensemble Palhetas Duplas muito agradecer a todos os que participam nestes dois concertos, dando um elevadíssimo contributo para o enriquecimento artístico do evento. A nossa gratidão também para todas as entidades e personalidades envolvidas nesta iniciativa que muito nos honra e orgulha.


Prof. Francisco Luís, nós é que nos sentimos muito honrados e orgulhosos por haver em Portugal um grupo como o Ensemble Palhetas Duplas. Muito obrigado pela sua disponibilidade para a concretização desta entrevista. Nós, empresa C&C e em nome do site bandasfilarmonicas, queremos desejar as maiores felicidades e prosperidade para si e para o Ensemble Palhetas Duplas.
 
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